As condições de vida e de trabalho na indústria da pedra

Embora o trabalho na indústria extrativa tenha sido, desde sempre, extramente penoso, foi sempre mais compensador do que o trabalho agrícola. Assim, sempre que surgiam possibilidades de trabalho nas pedreiras, eram muitos os trabalhadores agrícolas que “agarravam” essa oportunidade. Foi o caso da área de Sintra, primeiro com o crescimento da atividade extrativa e transformadora, no século XVIII, aquando da construção do Convento de Mafra, depois com o incremento exponencial da construção na capital na viragem do século XIX para o XX. Nesse período alargado, a região virá a receber milhares de trabalhadores vindos do interior do país, que farão crescer quase todas as povoações da área de Montelavar/Pero Pinheiro.

Canteiro- imagem produzida por IA

De facto, os salários praticados na “indústria da pedra” foram sempre o seu principal atrativo, dado serem, regra geral, superiores aos salários e rendimentos obtidos na atividade agrícola. Porém, esta compensação salarial era contrabalançada pela dureza e perigosidade do trabalho nas pedreiras.

Se apenas nos cingirmos ao número de horas de trabalho realizado por dia, este não se afastava de outros regimes, como o das Minas e da Agricultura – em que, por norma, o horário de trabalho era de sol a sol. Em geral, um “operário da pedra” tinha um horário de trabalho de 10 a 12 horas por dia, com alguns intervalos de descanso, o “tempo da merenda”. Este horário alargava-se ou restringia-se de acordo com as estações do ano, aumentando ou diminuindo com a dimensão do dia.

 O que distinguia o trabalho na indústria da pedra   era a carga físico-psicológica que acarretava para os trabalhadores. A extração da pedra era um trabalho de extrema dureza física e exigência muscular e acentuado perigo, ocorrendo com frequência acidentes que provocavam incapacidade permanente e, por vezes, a morte dos trabalhadores. Por outro lado, embora o maior risco fosse para os cabouqueiros (que extraíam a pedra), os próprios canteiros (que a trabalhavam) estavam sujeitos a riscos de trabalho (sobretudo lesões nos membros superiores) e a uma permanente exposição ao pó da pedra, causador de graves doenças respiratórias.

                                   Trabalhadores/canteiros na década de 1950

Refira-se também que, até a uma época relativamente recente, a indústria empregava frequentemente menores que viam assim coartada a sua educação e se sujeitavam a riscos idênticos aos dos adultos. A nível nacional, a percentagem de trabalho infantil nesta indústria, no início do século XX rondava os 12%, não devendo diferir muito a nível da região de Sintra. Tal refletia as dificuldades das famílias, que tinham que recorrer ao trabalho das crianças, de modo a fazer face a um custo de vida que os salários dos adultos não conseguiam por si só suportar. As mulheres também laboravam nas pedreiras, sobretudo em apoio às oficinas de cantaria, embora em percentagem inferior à dos menores. (1)

Em geral, como já se mencionou, os salários na indústria da pedra eram superiores aos obtidos no trabalho agrícola, mas verificava-se uma diferença entre o dos cabouqueiros e o dos canteiros, sendo estes, em geral, melhor remunerados, possivelmente devido à maior especialização exigida pela tecnicidade das suas tarefas.  O salário variava também em função do valor da pedra retirada, sendo geralmente mais alto quanto maior fosse o valor comercial da rocha extraída e trabalhada.

Embora os salários fossem mais altos que os de outras ocupações, apenas permitiam um nível de vida pouco superior ao limite de sobrevivência. Baixos salários implicavam más condições de vida. Os operários viviam, em geral, em casas sobrelotadas e insalubres e a sua alimentação era pouco variada e insuficiente em termos nutricionais, o que acabava por se refletir na sua saúde. O pão, o azeite, as sopas, o peixe salgado e o vinho eram os alimentos principais, mas a sua quantidade era quase sempre inferior às necessidades alimentares destes trabalhadores sujeitos a enormes esforços físicos. A carne era considerada um artigo de luxo, e até mesmo o porco e os enchidos, embora de uso mais generalizado, só entravam nas refeições duas a três vezes por semana, quando não eram reservados só para os domingos e dias santos.

O quadro até agora apresentado,de muito fracas condições de vida e de trabalho,manteve-se até uma época muito recente, tendo vindo a melhorar a partir de meados do século XX, em que o aparecimento de empresas de maior dimensão trouxe melhores condições salariais. A mecanização da indústria a partir de então veio, também, reduzir as exigências físicas do trabalho e aumentar a sua segurança.

Determinante para a melhoria das condições de trabalho foi, também, a própria luta dos trabalhadores.

No final do séc. XIX, começaram movimentações a nível nacional pela redução do horário de trabalho que só tardiamente acabaram por ter efeito, registando-se a sua primeira redução após a Grande Guerra.

As primeiras movimentações operárias a nível local de que temos registo foram as greves de Maio de 1944, contra o racionamento de bens de primeira necessidade imposto pela guerra, e a de 1948, em protesto pelas burlas nos descontos sociais por parte de alguns empresários. Em 1956 ocorreu na empresa Pardal Monteiro S.A.,uma greve às horas extraordinárias, em prol de melhores condições de trabalho.

A greve de 19 de Maio de 1965, que abrangeu várias empresas e cerca de 5000 operários, encontra-se melhor documentada.  Foi planeada por militantes do Partido Comunista, que adquirira uma influência crescente entre os trabalhadores. A greve teve como principal reivindicação um aumento salarial de 10 escudos diários (num salário médio à jorna de 50 escudos), mas também se exigia uma valorização das horas extraordinárias, um subsídio de féria s e outro de risco e o apoio às famílias dos que sofressem acidentes de trabalho. Estas reivindicações foram inicialmente apresentadas em manifestações junto do Sindicato que foram foi violentamente reprimida pela GNR, inclusivé com cargas de cavalaria, e pela PIDE, que efectuou várias dezenas de detenções, em que se incluiram alguns controleiros do PCP.

Segundo um testemunho: “A minha mãe contou-me que a manifestação foi aqui ao pé da nossa casa. Houve muita pancadaria, e prisões, e feridos ligeiros. Foi presa muita gente, a maior parte que estava só sentada no muro a assistir. Inclusive a GNR abriu os nossos portões forçando a fechadura e entraram com os cavalos e prenderam vários jovens cá dentro”. (2)

As fábricas, oficinas e pedreiras paralisaram durante 12 dias,e, a par com as movimentações da Marinha Grande de 1934, esta foi um das duas maiores acções de protesto  laboral com que o regime de Salazar se deparou.

                                  Documentação relativa à greve de 1965

A greve acabou por trazer algum incremento salarial, embora não tão grande como o que era desejado pelos operários. O governo, a braços com a contestação crescente e com a Guerra Colonial, quis estancar o problema e ordenou que se efetuasse um acordo entre os dirigentes do Sindicato Nacional dos Operários da Indústria de Mármores, Cantarias e Ofícios Correlativos e os responsáveis pelo Grémio dos Industriais de Mármores Rochas Similares e Cantarias para que se concedesse um aumento de oito escudos diários.

Nos anos imediatamente sequentes ao fim da ditadura houve novamente movimentações operárias, tendo algumas empresas sido alvo de ocupações por parte dos trabalhadores.

A partir da década de 1970 registou-se um aumento na emigração de operários canteiros, em particular para os países árabes e Estados Unidos, na sequência do incremento da exportação de rochas decorativas para esses países. Esta emigração acabou por se acentuar com a crise da Indústria da Pedra provocada pela Primeira Guerra do Golfo em 1991.

Uma das últimas vitórias dos “operários da pedra” foi a de terem conseguido que a sua profissão fosse equiparada à dos mineiros, permitindo a reforma ao fim trinta anos de trabalho e cinquenta anos de idade. No entanto, esta medida tem sido contestada por alguns patrões, que a têm tentado bloquear com o recurso aos tribunais.

O aparecimento das máquinas, em particular as de Controle Numérico Computorizado, CNC, desvalorizou a profissão de canteiro, cujo domínio técnico e especialização se tornou menos necessária.

Nos últimos anos, dada a pouca disposição dos jovens nacionais para um trabalho difícil e relativamente mal remunerado, as empresas passaram a recorrer a um número sempre crescente de imigrantes, inicialmente ucranianos e brasileiros e, mais recentemente, a trabalhadores do subcontinente indiano.

  • (1) Dados retirados da tese de Carlos Alexandre Ferreira de Sousa:  “As pedreiras em Portugal na segunda metade do século XIX: Obras Públicas e Indústria (1850-1890)” , Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
  • (2) Testemunho da Sra. Maria Basto, encontrado na página de Facebook : “Sou de Pero Pinheiro e gosto”