A região de Sintra apresenta uma tão grande multiplicidade de tipos de rochas que o geólogo e mineralogista Alfred Lacroix (1) lhe atribuiu a designação de “joia da petrografia”. Esta variedade deve-se, antes de mais, à conturbada história geológica da região.
A Serra de Sintra, abrange cerca de dez quilómetros de comprimento por cerca de quatro de largura, projetando-se da planície envolvente como uma elevação que atinge os quinhentos e vinte e oito metros de altitude.
A explicação da formação deste maciço subvulcânico encontra-se em acontecimentos que ocorreram por volta de há cerca de noventa e cinco milhões de anos. Nesse período, toda esta região, e grande parte do território Oeste do país, era mar. Um mar muito pouco profundo, com águas mais quentes do que as atuais. O litoral do que viria a ser o continente norte-americano estava ainda bem perto do nosso, pois a Pangeia “apenas” se havia começado a fragmentar umas dezenas de milhões de anos antes. O Oceano Atlântico era embrionário e estreito, com dimensões semelhantes às do atual Mar Vermelho.
O substrato rochoso deste mar era constituído por sucessivas camadas de rochas sedimentares com grande espessura, incluindo calcários, arenitos, argilitos e conglomerados. Nessa série de deposições, iniciada há cerca de 150 milhões de anos, no Jurássico Superior, os depósitos mais modernos e superficiais eram os calcários acumulados nesse fundo do mar no início do Cretácico Superior , por volta de há noventa e cinco milhões de anos. Por baixo desta série de camadas sedimentares estavam, e estão, rochas antigas, com mais de 280 milhões de anos, maioritariamente granitos e xistos do soco rígido, os mesmos que formam o substrato de Portugal e de toda a Península Ibérica.
Uns 30 a 35 quilómetros abaixo do nível do mar, a partir do limite entre a crosta e o manto, ascendeu uma fonte de calor vindo da profundidade, que começou a derreter os referidos granitos e xistos da crosta, transformando-os num magma que muito lentamente se foi elevando. Existindo na região uma falha geológica na crosta (com uma orientação sensivelmente Este-Oeste), foi através dela que subiu o magma. Na sequência da ascensão deste magma, as camadas sedimentares suprajacentes foram sendo empoladas e elevadas, formando uma cúpula, no interior da qual o magma foi subindo, arrefecendo e solidificando, o que aconteceu entre aproximadamente 90 milhões de anos e 66 milhões atrás. Durante a sua formação e subida, este magma foi engolindo e digerindo parte das rochas com as quais ia ficando em contacto, modificando a sua composição. Originaram-se, assim, vários tipos de líquidos magmáticos que, em contacto com os minerais pré-existentes, originaram outros tantos tipos de rochas, com destaque para o granito, o sienito, o diorito, o gabro, o mafraíto e algumas brechas ígneas.

A cúpula de camadas sedimentares, na maioria, calcários, trazendo consigo, escondido no seu interior, o miolo magmático, elevou-se bem acima do mar. Ao longo dos milhões de anos que se seguiram, a montanha foi sendo erodida e desgastada até à dimensão que hoje apresenta, e o seu miolo magmático ficou a descoberto, pelo que hoje a Serra é constituída predominantemente por granito e, mais para poente, na área da Peninha, sienito.
“O relevo de que hoje nos resta a serra de Sintra assumiu, no passado, um aspecto bem mais imponente, como o atestam os vastos derrames de depósitos grosseiros que nele tiveram origem. Não é de excluir a hipótese (muito provável) de, por algumas vezes, ter estado insulada, formando uma ilha não longe do litoral. Tal situação poderá ter ocorrido no Miocénico (entre 15 e 6 milhões de anos atrás) de que há testemunhos expressos sob a forma de depósitos marinhos situados em seu redor”. (2)
Os calcários e as outras rochas sedimentares da cobertura jurássica e cretácica subsistiram na periferia, em áreas como a de Montelavar/Pero Pinheiro, assim como nos concelhos de Cascais, Loures e Oeiras.
Esses calcários, que se mantiveram na periferia, vieram a sofrer a intrusão de rochas ígneas ou magmáticas. Assim, muitas áreas sedimentares acabaram por ser “fossilizadas” pelo aquecimento produzido pelas intrusões filonianas, recristalizando-se. Foi deste modo que, no Cretácio Superior, se formaram os calcários microcristalinos da região de Pero Pinheiro.
Em termos mecânicos e químicos, estes calcários são uma rocha carbonatada de metamorfismo de baixa temperatura, não podendo ser caraterizados como mármore, uma vez que não sofreram um processo metamórfico completo. Estes calcários apresentam variações de textura, de coloração e de conteúdo fossilífero, que refletem as várias condições locais em que se deu a sua formação e consolidação .

Configuração geológica dos calcários microcristalinos da região de Pero Pinheiro, estando assinalados a cinzento carregado
A precipitação do carbonato de cálcio sob a forma de microcristais de calcite no fundo marinho ocorreu em simultâneo com a existência de um grupo de seres vivos que habitavam naquele ambiente, os rudistas, o que teve como consequência a deposição de exemplares destes animais marinhos, cujas partes duras ficaram fossilizadas na rocha em formação.

Tipos de Rudistas
Os calcários microcristalinos de Pero Pinheiro/Montelavar, em termos de coordenadas geográficas, estão localizados a uma latitude entre 38.8453431 N e 38.867051 N e com uma longitude variando entre 9.3538896 W e 9.2812282 W. Na área em foco situam-se as localidades de Pero Pinheiro, Montelavar, Fervença, Lameiras, Morelena, Maceira, Pedra Furada e Negrais. A área estimada dos calcários com utilização ornamental é de 7 km2.

Os calcários microcristalinos de Pero Pinheiro encontram-se cartografados nas Carta Geológica de Portugal 34 A – Sintra, à escala 1:50.000.
Os calcários microcristalinos de Pero Pinheiro são há muito explorados como rocha ornamental (revestimentos, bancadas, tampos, etc), ou como elemento construtivo aplicado nas áreas nobres das construções (em particular, nas cantarias), pois as suas propriedades geomecânicas permitem a sua aplicação no interior e exterior das construções.
Estes calcários podem receber polimento, o que os preserva em condições ambientais menos favoráveis. Em geral, apresentam cor branca, mas exibem colorações variadas, de rosa-claro a rosa-escuro, vermelho-roxo, cinza, dourado, atingindo o amarelo queimado.
(1) Alfred Lacroix (1863-1948) foi um notável mineralogista francês que teve uma enorme influência no curso da investigação científica nesta área no nosso país. Descreveu, a partir de minerais encontrados no nosso território, novos tipos de rochas magmáticas a que atribuiu nomes relacionados com as áreas em que as encontrou: o lusitanito ( proveniente da região de Alter Pedroso), o algarvito ( de Monchique) e o Mafraíto (que pensava ser da região de Mafra, devido a uma troca de amostras, mas que na verdade havia sido encontrado em Sintra).
(2) Galopim de Carvalho, António, in https://paisagemcultural.sintra.pt/depoimentos/antonio-galopim-de-carvalho.html