A Pedra em Poesia

Pedra Bruta

António Lopes Marques (canteiro de Maceira) e José Alves Passos- Letra

Manuel Dias Pereira – Música

             I

Esta pedra bruta

À terra arrancada

Aos homens se oferece

Aos homens se oferece

P’ra ser trabalhada

           II

E o Homem com arte

Com carinho e amor

Faz da pedra bruta

Faz da pedra bruta

Jóias de valor

           III

Pedra bruta, pedra bruta

És o nosso ganha pão

Travamos árdua disputa

Dia e noite numa luta

p’ra te dar nova feição

            IV

Os padrões das descobertas

Testemunhos de uma luta

De Portugal à glória

São pedaços duma história

Gravados em pedra bruta!

             V

Quer o operário

Quer o escultor

À pedra se entregam

À pedra se entregam

Com todo o ardor

             VI

E na pedra lisa

Ou no monumento

Espelham com alma

Espelham com alma

Todo o seu talento

            VII

Quer na construção

Quer nas obras de arte

É essencial

É essencial

Vai p’ra toda a parte

           VIII

E aqui em Maceira

Sua honrada gente

Tem à pedra bruta

Tem à pedra bruta

Um amor ardente

Gravado na oficina do Mestre António Lopes Marques- 8/7/2025

Antonio Pereira (Apon) Poeta brasileiro contemporâneo

O distraído, nela tropeçou,

o bruto a usou como projétil,

o empreendedor, usando-a construiu,

o campónio, cansado da lida,

dela fez assento.

Para os meninos foi brinquedo,

Drummond a poetizou,

Davi matou Golias…

Por fim;

o artista concebeu a mais bela escultura.

Em todos os casos,

a diferença não era a pedra.

Mas o Homem.

“O estatuário”

Padre António Vieira

 (…)“…Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e, depois que devastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço. estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar…”

“Poema da pedra lioz”

António Gedeão


Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
como bisontes lendários,
modelam ternas figuras
na lentidão dos calcários.

Ali, no esconso recanto,
só o túmulo, e mais nada,
suspenso no roxo pranto
de uma fresta geminada.
Mas no silêncio da nave,
como um cinzel que batuca,
soa sempre um trucatruca
lento, pausado, suave,
truca, truca, truca, truca,
sob a abóbada romântica,
como um cinzel que batuca
numa insistência satânica:
truca, truca, truca, truca,
truca, truca, truca, truca.

Álvaro Gois,
Rui Mamede,
filhos de António Brandão,
naturais de Cantanhede,
ambos vivos ali estão,
truca, truca, truca, truca,
vestidos de sunobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.

No friso, largo de um palmo,
que dá volta a toda a arca,
um cristo, de gesto calmo,
assiste ao chegar da barca.

Homens de vária feição,
barrigudos e contentes,
mostram, no riso dos dentes
o gozo da salvação.

Anjinhos de longas vestes,
e cabelo aos caracóis,
tocam pífaro celestes,
entre cometas e sóis.

Mulheres e homens, sem paz,
esgaseados de remorsos,
desistem de fazer esforços,
entregam-se a Satanás.

Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se estende o trucatruca
que enche a nave, transbordando-a,
truca, truca, truca, truca
truca, truca, truca, truca.

No desmedido caixão,
grande senhor ali jaz.
Pupilo de Satanás?
Alma pura, de eleição?
Dom Afonso ou Dom João?
Para o caso tanto faz.

 Fernando Pessoa: heterónimo Alberto Caeiro

Li hoje quase duas páginas

Do livro dum poeta místico,

E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,

E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem

E dizem que as pedras têm alma

E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,

Eram gente;

E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras;

E se os rios tivessem êxtases ao luar,

Os rios seriam homens doentes.

 É preciso não saber o que são flores e pedras e rios

Para falar dos sentimentos deles.

Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,

É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.

Graças a Deus que as pedras são só pedras,

E que os rios não são senão rios,

E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos

E fico contente,

Porque sei que compreendo a Natureza por fora;

E não a compreendo por dentro

Porque a Natureza não tem dentro;

Senão não era a Natureza.