Entrevista a Luís Janicas Tomásio

Natural de Maceira, freguesia de Montelavar, neto de cabouqueiros e canteiros, desde muito cedo se interessou por saber mais sobre esta ancestral arte de extrair e trabalhar a pedra, tão característica desta zona

Fernando Matos (FM): Qual a sua ligação ao trabalho da pedra? Que aspetos particulares ou factos interessantes pode partilhar connosco dessa ligação?

Luís Tomásio (LT): Eu nunca estive ligado à pedra, sou apenas um curioso. No entanto tive a sorte de crescer numa família com fortes ligações à extração e transformação dos mármores e num meio onde este ramo constituiu desde tempos imemoriais, o principal motor do desenvolvimento de toda esta zona do eixo Mafra – Sintra – Lisboa.

Trabalho como consultor numa empresa de telecomunicações, mas tenho sempre muito presentes as minhas origens e todo um enquadramento familiar de íntima relação com o trabalho na pedra. O meu bisavô e avô maternos eram cabouqueiros. Tinham pedreiras em Maceira e extraíam a pedra manualmente, com camartelo, peixoto e tantas outras ferramentas cujo uso e arte se foram descontinuando no tempo. O meu avô materno foi também canteiro. Cresci a ouvi-lo falar dessa arte e dos trabalhos que faziam na altura.

Embora não extremamente entroncados, os homens destes ofícios ligados à pedra, possuíam por norma uma compleição física robusta. Mãos poderosíssimas e uma força espantosa, fruto do árduo trabalho manual a que se sujeitavam todos os dias.

Contam as gentes de Maceira que em meados do século passado, havia um cabouqueiro que, sentado na sua bicicleta “pasteleira”, costumava levar ao ombro, um macaco pesadíssimo de ferro (daqueles que eram utilizados para levantar os blocos de pedra), para a pedreira onde trabalhava!

Tempos houve em que o carregar e descarregar as chapas ou os blocos de mármore, eram efetuados sem recorrerem a qualquer maquinaria. Era a época do “pau e corda”, em que dois homens (um à frente do outro), partilhavam um pau grosso e umas cordas, numa versão arcaica do atual monta-cargas/empilhador. Assente no ombro de cada um, esse pau e essas cordas deslocavam, num trabalho conjunto, pedaços de mármore pesadíssimos.

Nessa altura o trabalho na pedra era, muitas das vezes, partilhado (no pós laboral) com o trabalho agrícola. Sem tratores ou alfaias, em miúdo cheguei a observar o meu avô muitas vezes a cavar vinha, de uma forma ritmada e profunda e com uma resistência como nunca julguei ser humanamente possível, muito menos a alguém nessa altura já na casa dos 60. Tudo isto justificado, sem dúvida, pela pujança física de uma vida de labuta na pedra.

É certo que são muitos os episódios de prosperidade, mas também alguns episódios tristes, como acidentes, que uma ou outra vez faziam presentes a esses trabalhadores, os riscos desta vida dura. Casos houve de esmagamentos, amputações e traumatismos graves. O meu avô materno foi um deles.

Certo dia, ao descarregar umas chapas com cerca de 20 cms de espessura, quase que viu as suas pernas serem decepadas/esmagadas, quando uma fenda nas chapas se abriu e precipitou sobre ele umas centenas de quilos de pedra mármore. Por pouco não se esvaiu em sangue (o socorro não era como nos nossos dias). Acabou por estar internado vários meses e ficar com chagas numa das pernas para a vida toda. Desta forma, com cerca de 60 anos terminava assim o seu percurso profissional neste ramo.

FM: Ainda tem para lá desses equipamentos que nos possa ceder?

LT: Tenho e posso deixar-vos fotografar ou expor outros que por estima gostaria de conservar para mim. Tenho em casa uma espécie de mini-museu com esses materiais. Não só do meu avô, mas alguns também de outros familiares que mos foram oferecendo.

FM: Pode falar-nos mais um pouco sobre a profissão dos seus avós (cabouqueiros)?

Era uma profissão difícil a de cabouqueiro. No verão trabalhavam nas pedreiras enfrentando temperaturas elevadas, num ambiente abafado e seco. No inverno, por outro lado, tinham de andar muitas vezes com água pelos joelhos a arrancar pedra. Antigamente não havia sistemas mecânicos para escoar a água. Quando chovia muito não conseguiam trabalhar, chegando a estar parados vários meses nos invernos mais rigorosos. Tudo isto, como é óbvio, tinha impacto na economia do agregado familiar.

Hoje em dia há bombas e máquinas com fios diamantados, o que facilita imenso o corte dos blocos nos bancos de extração. Dantes punham cunhas de metal, uns espigões em ferro, umas cavilhas grandes, traçavam uma linha e iam espetando pela linha fora. É por isso que as pedras cortadas tinham relevos circulares. Era preciso habilidade e saber, para não rachar tudo. Aconselho-vos a ver este vídeo antigo sobre essa extração ( https://www.facebook.com/share/v/1HjRwr4DZ5/ ).

FM: Ainda há pedreiras com extração?

LT: Sim. Por exemplo a cerca de um quilómetro de minha casa, muito perto do campo de futebol do Pêro Pinheiro, existe uma pedreira enorme, onde ainda se extrai mármore. A Solancil.

FM: Quais os tipos de pedra que aqui são extraídos?

LT: Mármore, mais concretamente o Lioz. Na localidade onde moro (Maceira), o Lioz apresenta duas qualidades/tonalidades: o azulino e o almiscarado (dizia-se antigamente “almiscado”). Estas duas tonalidades podem ser encontradas em vários monumentos, sendo provavelmente o mais conhecido, o convento de Mafra.

Existem outras tonalidades características de várias destas localidades, que faziam parte da antiga freguesia de Montelavar (a qual na altura englobava também toda a atual freguesia de Pero Pinheiro) e de uma em particular da freguesia de Almargem do Bispo, os Negrais. Nesta localidade, o amarelo e o vermelho são as duas tonalidades bastante apreciadas, que granjearam também alguma notoriedade.

Muito conhecido e utilizado é também o Lioz da Fervença e das Lameiras ou o encarnadão de Morelena.

As tonalidades são por vezes distintas nas várias localidades, de acordo com as características dos vários “bancos” de pedra.

FM: Que trabalhos de transformação se fazem aqui?

LT: Hoje em dia estamos na era da maquinaria. Houve nas últimas décadas uma grande evolução, tendo em vista o trabalho em série, mais rápido e preciso. E especializado, muitas vezes não só no mármore, mas também no granito, cujas características são morfologicamente diferentes daquele. Paralelamente surgiram, entretanto, alguns materiais concorrenciais da pedra, nomeadamente o silstone.

FM: Mas ainda trabalham o mármore?

LT: Sim, maioritariamente ainda. Continua a vir pedra de todo o país. Não estou a par das atuais tendências, mas há alguns anos, para além do mármore local, havia também uma predominância por exemplo do mármore de Estremoz ou de Porto de Mós. E também de granitos como os de Santa Eulália, Évora, Monforte, Alpalhão, Viseu, Serpa ou Monção.

FM: Consegue fazer-nos um pequeno enquadramento histórico com algumas empresas de relevo aqui da zona?

LT: Posso tentar. Tanto quanto sei o Pardal Monteiro era uma das grandes empresas daqui, durante a primeira metade do século passado. Chegou a empregar algumas centenas de trabalhadores. Foi um dos donos desta empresa, o arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, um dos grandes responsáveis pela transformação da face de Lisboa nas décadas centrais do século XX, com projetos tão emblemáticos como a Gare Ferroviária do Cais do Sodré, o Instituto Superior Técnico, o Instituto Nacional de Estatística, o Seminário dos Olivais, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, o edifício do Diário de Notícias, as Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a Cidade Universitária (Reitoria e Faculdades de Direito e de Letras), os Hotéis Tivoli, Mundial e Ritz, ou a Biblioteca Nacional.

Esta empresa, situada em Pêro Pinheiro, viria mais tarde a ser extinta e as suas instalações foram recentemente vendidas à Câmara Municipal de Sintra.

Alexandra Gomes (AG): Parece que as obras para a criação do tal polo tecnológico ligado ao IST voltaram a arrancar nessas instalações…

LT: Sim, há um projeto em curso, não sei muito bem em que moldes porque já foram indicadas várias possibilidades…

FM: Quais as maiores empresas ainda a laborar?

LT: Em Pero Pinheiro talvez a Urmal, a Mármores Galrão e os Amaros. A Roufimar e a Plurimármores em Maceira. A Lucidal em Montelavar. A Granisintra na Granja dos Serrões. A Alexandrino e os Mármores da Granja nas Lameiras, entre tantas outras, que por desconhecimento meu ou lapso temporário, posso estar aqui a omitir.

FM: É sabido que grande parte de Lisboa foi construída com pedra daqui.

LT: Sim, é um facto histórico a importância da extração e transformação do mármore nesta zona, para a reconstrução da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755.

FM: Em termos históricos sabe dizer-nos desde quando remontam estes trabalhos em que se utilizava a pedra desta zona?

LT: Se falarmos de monumentos e obras de arquitetura relevantes a nível nacional, sabemos que remontam já ao período romano, embora se tenham mantido ao longo do tempo.

Com a descoberta do Brasil, por exemplo, a pedra desta zona era utilizada como lastro nos navios (para estabilidade da navegação) nas viagens provenientes da metrópole e depois trocada em terras brasileiras por mercadorias. Este facto permitiu e embelezou a construção de muitos monumentos e obras públicas brasileiras, de uma maneira particular em toda a sua zona costeira. Aconselho a todos a leitura da obra de Zenaide Carvalho Silva, “O Lioz português, de lastro de navio a arte na Bahia” (Edições Afrontamento), na qual é possível verificar a importância do nosso lioz em muitas das grandes obras arquitetónicas e decorativas de relevo no Brasil, até à sua independência (igrejas, palácios, chafarizes, aquedutos, etc).

De volta a Portugal, há documentos que defendem que apesar da sua disseminação generalizada pela freguesia de Montelavar, o primeiro parque (agregado) de empresas transformadoras de pedra surgiu em Maceira.

Relativamente à importância desta nossa pedra para os monumentos portugueses, vejam que por exemplo, pelo menos algumas das estátuas do padrão dos descobrimentos, foram esculpidas aqui mesmo em Pero Pinheiro. A maior parte da pedra do convento de Mafra também saiu destas nossas pedreiras.

AG: Era giro era ter fotografias dos processos que as pessoas usavam para trabalhar a pedra.

LT: Sim. Por exemplo, eu entrevistei em 2016 o senhor Artur Catalão, residente em Maceira. Na altura já com cerca de 90 anos, mas ainda muito lúcido e ainda com pequenos trabalhos em curso, ele falou-me um pouco como é que tinha sido trabalhar a pedra nas últimas 6 décadas. Que utilizava um aparelho chamado cruzeta, o qual possuía umas varetas com que transpunha as medidas dos moldes (em gesso) para a peça de mármore a desbastar. Esse senhor foi um dos escultores das estátuas do Padrão dos Descobrimentos, que saíram da tal fábrica/oficina de Pero Pinheiro que vos referi mais atrás (situada em frente à casa paroquial).

AG: Como é que podemos saber as várias profissões/categorias ligadas aos trabalhos da pedra?

LT: Uma listagem mais extensa e completa só mesmo falando com as pessoas mais antigas. Eu conheço apenas algumas que aqui já referi.

AG: Consegue fazer-nos um enquadramento das últimas décadas (que já terá acompanhado pessoalmente)?

Posso tentar. No séc. XX havia poucas grandes empresas que trabalhavam a pedra e foi assim até à década de 80.

Por exemplo aquela que chegou a ser a maior empresa de granitos de Portugal estava sediada em Maceira (Granitos de Maceira) e atingiu o seu auge nas décadas de 80/90. Fazia trabalhos para todo o mundo.

Para percebermos a importância económica desta empresa não só na nossa freguesia, mas também em muitas localidades alentejanas, importa saber que um dos sócios (Francisco Ramos), foi inclusive homenageado com o grau de Comendador por Mérito Industrial (juntamente com o Rui Nabeiro da Delta), pelo então presidente da República Jorge Sampaio.

A maior parte dos pavimentos do edifício da Portugal Telecom e das sedes de vários bancos em Portugal também saíram desta empresa. No estrangeiro destacar-se-ia no fornecimento de pedra para vários edifícios emblemáticos espalhados pela Europa. Também em Angola, em monumentos nacionais como por exemplo o monumento a Agostinho Neto em Luanda, ou nos Estados Unidos da América no monumento às vítimas do vaivém Challenger, em Filadélfia. Até algumas das estrelas do passeio da fama de Hollywood chegaram a ser feitas nessa fábrica.

 Depois, com o boom na Construção da década de 80 e com a especialização de muitos dos empregados, estes começaram a sair dessas grandes empresas e a formar as suas. Nessa altura surgiram muitas pequenas empresas, algumas delas familiares.

Entretanto, muitas dessas empresas faliram, algumas devido à conjuntura económica e política internacional (guerra do Golfo por exemplo), outras talvez por falhas de gestão, por incapacidade de se reinventarem em termos tecnológicos ou de integração em novos mercados. Mas muitas outras subsistem e fazem uso já das novas tecnologias como os trabalhos em CNC (Controlo Numérico por Computador), cuja definição indica ser o passo principal no processo de criação de um componente ou peça através da remoção de material. Ou seja, é um software utilizado por máquinas para desbastar, modelar, neste caso a pedra. Uma espécie de escultor robotizado.

A título de curiosidade, eu tenho vindo a colecionar também algumas peças, que vou adquirindo em algumas destas empresas. Por exemplo uns bancos de jardim em vários tipos de granito (peças que chegaram a ser exportadas para os Estados Unidos) e algumas mesas esculpidas a jato de areia, por um dos mestres ainda vivos desta arte. Peças lindíssimas, algumas delas provavelmente as últimas feitas naquele tipo de granito numa destas empresas que já faliram (Granitos de Maceira).

Participei na organização há pouco tempo, de uma exposição no Centro de Convívio de Maceira sobre o trabalho da pedra. Reunimos informação junto de pessoas com conhecimentos nesta área. Ou se fazia agora para memória futura ou algum desse conhecimento perder-se-ia para sempre.

Foram expostos alguns trabalhos de pessoas mais idosas, lindíssimos. Foram mostrados e explicados instrumentos como a cruzeta. Soube então por testemunhos recolhidos entre os vários artistas expositores, que por exemplo muitas das fontes de Lisboa e seus ornamentos foram feitos por estas pessoas, como por exemplo os peixes por onde sai a água nos fontanários. Entre muitas outras peças que podemos observar por aqui nestas terras, o Leão do Sporting no interior da portaria do estádio, foi também feito pelo senhor Artur Catalão (o Fininho como era mais conhecido), de quem já falei mais atrás e que faleceu recentemente.

Por toda esta riqueza cultural, arquitetónica, social e económica, subjacente à utilização ao longo dos tempos da pedra nesta zona, devo dizer que, a par com um desejo de preservação histórica para memória futura, espero também que a conjuntura nacional e internacional possam permitir que esta indústria possa subsistir e evoluir, porque isso determinará em grande parte o futuro sócio-económico desta região.