Empresário da empresa Joaquim Duarte Urmal e Filhos

Entrevistadores: Professores Fernando Matos e Isa Santos da Escola Rui Grácio
F.M.- Como se formaram os depósitos calcários aqui da região?
J.A. Formou-se conforme sobressaiu o batólito que aqueceu todas as terras da zona. Mesmo na Serra de Sintra existiu mármore para os lados da Malveira da Serra, um azul de calcário orgânico, que quando se corta deixa cheiro.
Em Mem Martins existia um calcário preto, mas hoje os locais de extração estão por de baixo das povoações. Este calcário exposto ao sol fica acinzentado.
A maneira como os fósseis se depositaram determinou as características da rocha. As camadas superiores são lioz, em que os depósitos de rudistas estão mais visíveis, as camadas inferiores, em que houve uma maior pressão e consequente metamorfose são o abancado. Mas aqui é usual dar o nome lioz a tudo.
O lioz, ao contrário do mármore, que metamorfoseou devido ao calor e às pressões, não metamorfoseou.
F.M.- É muito difícil encontrar um catálogo das rochas locais que seja preciso. Depois de pesquisar, consegui construir este. (Fernando Matos mostra mostruário dos vários tipos de lioz da área).
J.A. -Lioz de Montemor já não há, as pedreiras fecharam para fazer a CREL. O encarnadão é aqui da zona de Lameiras. O St. Florien Rose é um abancado arroxeado muito exportado para a Bélgica e daí o seu nome.
O que também começou a ter muita saída para a Bélgica foi o Chainete. É um conjunto de abancado fino e encarnadão, que os dois juntos, ao serem serrados ao contra (contra a posição de deposição), deixam a ver-se todos os veios. Ainda existe em Lameiras.
Hoje comercialmente os fabricantes estão mais interessados em chamar lioz a tudo, inclusive ao abancado.
Na verdade, nas pedreiras tradicionais só havia uma camada de lioz. Por cima estava o samouco, uma pedra muito fraturada que servia para brita, depois era o lioz, depois o encarnadão, num banco fino. Os antigos distinguiam os vários bancos e, dado que não havia máquinas, tinham de procurar o mais fácil de levantar. Era levantado com umas calhas de picão, ou umas cunhas de ferro, com os homens a bater.
FM- A pedra era extraída só com a força humana? Não usavam explosivos?
J.A.-Não. Hoje é mesmo proibido. Havia também quem usasse umas cunhas de madeira que, depois de molhadas, inchavam partindo a pedra.
FM- Isso era como os egípcios faziam.
I.S. Estive na Serra de Aire, ao pé de Fátima, numa fábrica, a Telmo Duarte, em que tinha painéis de pedra “serrada ao contra” muito bonitos. Era uma fábrica recentemente construída e moderna, com excelentes sistemas de ventilação.
J.A.- Essas fábricas, por serem no interior, recebem muitos subsídios estatais. Nós, por estarmos na região de Lisboa, não temos direito, o que acaba por levar a uma concorrência desleal. Ao contrário da nossa empresa, em que as instalações foram crescendo consoante as disponibilidades, essas foram feitas de raiz.
I.S.- Essa zona tem muito calcário, é o maciço calcário estremenho.
J.A.- As empresas dessa região têm exportado muito para a China. Tem sido a salvação dessa gente lá de cima. A matéria-prima tem sido exportada em bruto, em bloco. Mas hoje, com a crise na construção na China, algumas empresas estão-se a ir abaixo.
F.M.- Vocês atualmente recebem rocha de todo o lado.
J.A.- Sim, de Itália sobretudo, por exemplo, de Carrara. Também de França, da zona de Paris. Sai-lhes mais barato, mesmo com os custos de transporte, que a pedra seja aqui trabalhada. Em França já há poucos artesãos. Em França há muito a tradição de forrar os edifícios com calcário, por exemplo em Paris. Hoje em dia nos Estados Unidos há muito o gosto, inspirado em França, de usarem calcários franceses. Quem quer fazer um palacete gosta de calcários franceses nas fachadas.
Os custos do trabalho é o que justifica que prefiram as empresas portuguesas. Nós, por enquanto, ainda vamos arranjando mão de obra, sobretudo emigrantes. Temos serventes da Índia e ucranianos e brasileiros com experiência.
Voltando ao Lioz… a sua exploração começou a ter grande desenvolvimento foi com a construção do Convento de Mafra. Toda e pedra que lá está veio daqui, exceto as estátuas que são de mármore de Carrara e que já vieram feitas. Imagino a quantidade de juntas de bois que seriam precisas para levar a pedra a vencer o Vale de Cheleiros.
Havia também muita exploração de Lioz em Lisboa, como se percebe pela toponímia: “Pedreira dos Húngaros”, “S. Sebastião da Pedreira”. Parte da pedra que foi para os Jerónimos foi retirada de onde é hoje o Estádio do Restelo. À entrada de Lisboa, pelo Viaduto Duarte Pacheco, também se percebe que ali havia pedreiras.
Há uma página de facebook com muita informação interessante chama-se: “Eu sou de Pero Pinheiro e gosto”. (mostra várias fotografias da página, incluindo uma do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro).
F.M.- Não tem para aí fotografias que registem a História da Empresa ou da indústria da pedra.
J.A. – Infelizmente nunca tivemos o hábito de fazer esses registos. Entramos num café em Carrara e vemos muitas fotografias antigas, nós aqui em Portugal não.
I.S.- E das coisas que vocês fizeram, não têm nada?
J.A.- Temos algumas coisas, temos… Fizemos aqui há tempos uma obra, em que o arquiteto americano, que recebeu um prémio, nos agradeceu muito. Mandou-nos uma revista em que o nosso trabalho era referido. Outra coisa que fizemos nos E.U.A. foi, junto ao “Ground Zero”, a sede da Goldman Sachs. Mas como nós, normalmente, não trabalhamos diretamente como o “contractor”, o empreiteiro, acabamos por não saber onde acaba por ser utilizada a nossa pedra.
Anteontem tivemos cá sete arquitetos e arquitetas americanos para verem a pedra que está na nossa área de exposição. Preferem vir cá por causa do preço, não vale a pena ser ingénuo, porque os italianos também sabem trabalhar muito bem.
Nós já exportamos para os Estados Unidos há muitos anos. Tinha eu quinze anos e já exportávamos. Naquela altura era sobretudo tampos de mesa, e depois começámos a fazer algumas obras.
Fizemos também muitos trabalhos para a Arábia Saudita.
F.M.- Podemos agora dar uma volta ver pelas instalações.
J.A.- Com certeza, vamos lá…
Fotos da Empresa Urmal



Blocos de várias proveniências-nacionais e intenacionais

Máquina de corte de chapas de pedra

Engenho de serração de blocos


Máquinas CNC


Alguns trabalhos: banheira num único bloco, trabalho de embutidos

Obra do escultor Carlos Andrade à entrada da empresa