82 anos-Mestre Canteiro
Entrevistadores: Alexandra Gomes e Fernando Matos, professores da Escola Rui Grácio, e Luís Tomásio

F. M- Por favor diga-nos o seu nome e idade.
A.M.L- António Marques Lopes. Nasci em 1943.
F. M-Qual a empresa a que esteve mais tempo ligado?
À Urmal, mas principalmente à granitos de Maceira. Fui à América com os meus patrões. Fui a Nova Iorque, a Baltimore com eles e depois à Inglaterra. Não íamos trabalhar, íamos passear. Aprendi muito com os americanos, mas eles também aprenderam muito comigo.
F. M.-Ainda havia muitas pedreiras a trabalhar no seu tempo?
A.M.L- Então não havia.
Tinha um amigo o Raimundo. Ele tinha o trabalho de arrancar blocos nas pedreiras para irem para as serrações, e morreu a trabalhar. Quer dizer morreu em casa, mas por causa do violento trabalho. Era tudo arrancado à mão levantado com macacos e levado com cordas à mão. Ele gostava de me ouvir cantar o “Pedra Bruta”.
F.M- Que tipos de rocha eram trabalhados? Quais os mais típicos daqui.
A.M.L.-O que era mais trabalhado aqui era o Estremoz do Alentejo, que também vinha de Vila Viçosa, Elvas…Aqui na nossa zona há o azulino e o Lioz, o bastardo, que é meio amarelo, meio encarnado, e o encarnadão da serra, lá em cima ao pé dos moinhos, esse é mesmo encarnado.
L.T.-Na pedreira do meu avô?
A.M.L.-Exatamente, já tenho ido lá buscar pocadinhos para dar.
F.M.-E que funções é tinha na sua empresa?
A.M.L. -Trabalhei máquina de cortar e máquina de polir. Depois comecei a ter jeito para coisas mais difíceis, que não se faziam no meu patrão. Ele disse-me: “estás habilidoso, sabes trabalhar de maceta e de cruzeta”. E assim comecei a fazer outros trabalhos. Também comecei a utilizar o jato de areia, com que fiz umas rosas que estão em casa da minha filha. Até cheguei a fazer um anel. Aquelas campas que estão no cemitério de Montelavar, que têm a cruz com o ramo de rosas, são todas minhas filhas. Ainda agora as pessoas me vêm pedir para fazer coisas iguais. Mas já não faço…mas vou ensinar quem me pede.
F.M.-Nunca trabalhou como cabouqueiro?
A.M.L.-Não…Canteiro e carpinteiro de caixotes de apoio ao transporte da pedra.
F.M.- E as condições de trabalho nessas empresas, eram boas ou más?
A.M.L.-Estava como se fosse a minha casa, os patrões eram meus amigos e levavam-me para todo o lado.
F.M.- Disseram-me que a seguir ao 25 de abril tinha havido umas lutas, umas ocupações de fábricas, é verdade?
A.M.L.-Isso aconteceu nas pedreiras do Alentejo, aqui não. Houve lutas mas foi antes, nos anos 60.
F.M.-Então tem assim alguma história engraçada?
A.M.L.-Não, esta cabeça já não é o que era.
A.G.-Então e essa canção sobre a pedra.
A.M.L.-A Pedra Bruta? Está bem…
Esta Pedra Bruta… (ver vídeo na página a Pedra em Poesia)
António Marques Lopes explica o funcionamento de um engenho de corte de pedra a partir de uma maquete por si construída- Gravado a 8/7/2025