Entrevista ao Sr. Bruno Ribeiro

Canteiro (ex-aluno do Curso de Cantaria da Escola Rui Grácio) atualmente a trabalhar na empresa STONEPERFORMANCE

Entrevistador: Fernando Matos, professor na Escola Rui Grácio

Fernando Matos- Como se iniciou nesta atividade?

Bruno Ribeiro- Fui aluno do professor Romeu aqui no Curso de Cantaria e essa é a base da minha formação.

F.M. -Qual a empresa a que está ou esteve ligado?

B.R.-A minha empresa, Stone Performance, faz parte do grupo Edem e fazemos trabalhos para todo o mundo. Vou-lhe mostrar aqui alguns. Esta foi uma parte de uma ponte de Londres cuja decoração lateral em pirâmides reconstruímos a partir de fotografias. Em Inglaterra há quem faça, mas é muito mais caro e compensa enviar as peças de avião.

A StonePerformance faz um produto inovador. Usa-se uma pedra com poucos centímetros e depois fortalece-se por detrás com uma estrutura metálica em favo de abelha. Isto torna o material mais leve e resistente. Esta técnica veio de Itália e adotámo-la depois de perder a patente.

F.M.-Ainda havia/há pedreiras a laborar no seu tempo?

B.R.-  Ao pé de Maceira há extração de lioz claro, pela Solancis. Em Lameiras há duas empresas, uma extrai amarelo, outra extraí vermelho. Foi com este vermelho que foi feito o CCBelém. O azulino brecha de Maceira, já não tem extração. Mesmo no fim da pista da base aérea, extrai-se um lioz amarelo em extração. Pelo menos há quatro pedreiras ainda a extrair. Quando as pedreiras deixam de ser rentáveis fecham-se. Hoje há vários edifícios onde eram pedreiras, por exemplo o pavilhão multiusos e o campo de futebol de Pero Pinheiro. A Igreja de Pedro Pinheiro, está construída em cimo da pedreira de onde foi extraída a pedra do Convento de Mafra e ainda há uma área aberta. Tenho fotografias desse sítio e depois envio-lhe. Tenho fotografias com carros de bois a levar pedra e muitas outras.

Ainda apanhei uma geração antiga, mesmo a minha família há gerações que trabalha na pedra.

F.M.-Quais os tipos de rocha extraídos na região de Montelavar/Pero Pinheiro?

B.R- Já referi.

F.M.-Que tipos de rochas são aqui trabalhados?

B.R.-Em Pero Pinheiro é trabalhada pedra de todo o mundo. Apesar de haver ainda alguma extração somos uma hoje sobretudo uma zona de transformação. Há duas empresas que nos mandam pedra de todo o mundo em chapa e nós trabalhamo-la. Pode vir do Brasil ou de Angola; trabalhamo-la e depois enviamos aos clientes. Ainda se trabalha muita pedra de Estremoz, branco ruivina e azul. Também recebemos de Beja, o trigacho, cinzento, também daí vem um verde em tons de alface.

F.M.-O que é o mármore?

B.R.-O mármore é cristalino, tem uma consistência diferente do liós, é formado por cristais. O calcário é por formação de absorção. O lioz é formado por deposição oceânica.  Às vezes usa-se o termo mármore de forma generalista e incorreta. O granito e o basalto são de origem vulcânica. Na verdade, todas essas pedras vêm para aqui para ser trabalhados.

F.M.-Qual a proveniência das rochas que são trabalhadas pela sua empresa?

B.R.-De todo o lado.

F.M.-Quais os tipos de trabalhos de transformação a que a sua empresa se dedica?

B.R.- Aqui fazemos tudo, corte, polimento, etc. Quanto a mim, até extração eu seria capaz. Sou um apaixonado, estudo e tento saber como se fazia antigamente. Era utilizada dinamite, mas depois deixou de se fazer, pois as pedras estalavam. Hoje com fios diamantados faz-se o corte. É o mesmo sistema que antigamente, em que eram cabos de aço entrançados com areia abrasiva. O fio andava e ia-se pondo areia. A água era utilizada para arrefecer os cabos. A água faz com que a pedra fique mais macia, o calcário, e arrefece o fio de diamante. O fio é mesmo de diamante, são cristais pequenos, de grande dureza. Na Escala de Mohs qualquer pedra que seja mais dura que a outra já corta.

F.M.-Para onde são vendidas e/ou exportadas as rochas já trabalhadas?

B.R.- O mercado que existe hoje em dia é para todo o mundo. Há o mercado nacional que é menos rentável, depois temos a exportação de luxo para os países árabes e outros.

F.M.-Que tipo de maquinaria é utilizada para o trabalho da pedra?

B.R.-Hoje usa-se a máquina CNC. O Sr Duarte, da Duarte Mármores da Pedra Furada, pode explicar-vos bem como é que funciona. É uma empresa que desde 1960 que está no mercado.

F.M.-Qual a referência mais antiga que conhece em relação à indústria de extração e transformação da pedra aqui na região?

B.R.-Provavelmente foram os Jerónimos, na verdade tudo o que foi feito em lioz em Lisboa, veio daqui. Até na Igreja de S. Miguel nos Açores, os relevos mais trabalhados, que se destacam da pedra vulcânica, basalto, foram feitos com material vindo daqui. A Cúpula do Congresso americano, foi feita com pedra vinda daqui.

F.M-Como tem sido a evolução económica da indústria da pedra nas últimas décadas?

B.R-Começaram a aparecer as CNC e desvalorizou-se o canteiro. A seguir veio a crise, e as pessoas emigraram. Dos meus nove irmãos, só dois ficaram. Quatro estão nos E.U.A., tudo a trabalhar na pedra. O mais novo acabou de fundar a sua própria empresa de pedra no Estados Unidos. Hoje em dia o Canteiro não é valorizado, os jovens não querem sujar as mãos e trabalhar na pedra. A propósito, há aqui peças na escola que fui eu que fiz. Aquele Leão sem uma orelha na portaria fui eu que o fiz, foi a minha primeira. Ainda para aí um candeeiro com uma bola e dois cubos que fui eu.

As empresas deixaram de investir e a escola também. Hoje em dia há meia dúzia de canteiros, farto-me de ganhar dinheiro e não paro porque não há quase ninguém. Agora tenho uns miúdos a aprender comigo. Na verdade, a profissão está mesmo em vias de extinção. Os Galrões e o Urmal têm um ou dois aprendizes.

São as duas empresas onde podem obter mais história, mais ferramenta antiga e fotografias.

Os Galrões eram um dos patrocinadores do curso e os alunos faziam lá estágio.

F.M.-O trabalho da pedra é compensador em termos salariais?

B.R.-Não é. O que afasta as pessoas é ser uma profissão dura e mal paga. Hoje em dia os miúdos com dezoito anos, muitos com o 12º ano, têm “caminho muito aberto” e ninguém vai querer ir para a pedra. Preferem um trabalho limpo. Os empresários querem pagar o ordenado mínimo numa profissão que é dura, e toda agente foge. A nível profissional, eu não ganho mal, mas foram preciso trinta anos para aprender e me valorizar. Mas é preciso talento, é como se fosse um escultor. Há gente que passa toda a vida a fazer ladrilhos e não evolui. No meu caso ganho de ordenado base 1600 euros. Quem começa ganha o ordenado mínimo. Um acabador tem um ordenado de 1100 euros.

F.M.-Como são as condições de trabalho na empresa em que trabalha?

B.R.-A nossa profissão foi equiparada aos mineiros. Com trinta anos de trabalho e cinquenta anos podemos reformar-nos, já está legislado. Mas os patrões estão a tentar contestar em tribunal, em particular a Assimagra. É uma profissão muito dura e inala-se muito pó que afeta os pulmões. Em particular os acabadores e os canteiros que trabalham a pedra a seco. Se a mentalidade dos empresários não mudar não vai ser compensador. Os empresários são muito “saloios” e retrógrados. Não ensines demais, que eu não posso pagar a todos como profissionais.

F.M.-Lembra-se de alguma história curiosa relacionada com o trabalho da pedra.

B.R.- Mais de uma caricata…Mandaram-me uma sanita de avião para Portugal para alargar o buraco e voltou de avião para os E.U.A.

F.M.- Muito obrigado pela sua colaboração.

Trabalhando a pedra

Executando uma peça da designer francesa Vitória Wilmote