Entrevista ao Sr. Eduardo Galrão

Dono da empresa Granisintra

Entrevistadores: Alexandra Gomes e Fernando Matos, professores na Escola Rui Grácio

Fernando Matos- Há quantos anos labora a sua empresa?

Eduardo Galrão-Desde 1988, ou seja, há 47 anos.

F.M.-Esta empresa tem muitos trabalhadores?

E.G.-Olhe que não, já teve, mas devido a diversos fatores já não tem.

Antigamente trabalhava-se a partir de pedra serrada. Comprava-se os blocos e serrávamo-los aqui. Agora, como há muitos armazéns de distribuidores de pedras aqui na zona, os blocos são transformados noutros lados e o material já chega aqui em chapas. Se um cliente quer uma determinada quantidade, para nós é muito mais prático irmos buscar a um desses fornecedores. Assim só trazemos desse armazém aquilo que queremos. Nós até chegámos a ter pedreiras. Punhamos um bloco grande a serrar, tirávamos cem metros de pedra, mas se o cliente queria apenas 20 metros de uma chapa, acabávamos por ficar com imenso desperdício. Temos ainda uma enorme quantidade dessas chapas que sobraram, mas quando as mostramos, os clientes rejeitam-nas. Hoje em dia ou vão para os sintéticos, ou para outras qualidades estrangeiras. Também por isso é mais prático ir buscar chapas a um armazém do que estar aqui a serrar. Ainda temos serração, que chegou a ter quatro engenhos a trabalhar agora só tem um.

F.M.-A empresa já teve pedreiras?

E.G.- Sim, no Alentejo em Monforte e Alpalhão. Mas centrámos sempre a nossa empresa no granito, porque empresas dedicadas a mármores e calcários já havia muitas.

F.M.-Ainda há pedreiras por aqui?

E.G.-Sim, a Solancis que extrai uma espécie de calcário, mas que não é Lioz, é vidraço. E o Alexandrino nas Lameiras. E há ainda mais algumas que se dedicam a britas. Aqui em Maceira o que se extraía mais era o Lioz azulino.

F.M.-Aqui na Granisintra trabalham sobretudo o granito, certo?

E.G.-Atualmente trabalhamos todo o tipo de pedra, granito, mármore e outras, entre as quais as pedras sintéticas, como o silstone.

F.M.-Exportam material para o estrangeiro?

E.G.-Sobretudo para a Bélgica e para a Suécia.

F.M.-Como é que tem evoluído a maquinaria nesta indústria?

E.G.-Tem evoluído bem, há já máquinas muito sofisticadas e podemos dizer que estamos ao nível de qualquer país. Por exemplo as máquinas CNC, que são a coqueluche da maquinaria e já há várias empresas aqui a usá-las.

F.M.-Havemos de ir a uma empresa em que vejamos uma a trabalhar.

E.G.-Hoje em dia a maior empresa é a Mármores Galrão. Já houve duas também muito grandes a Pardal Monteiro e a Mármores do Condado. Aqui chegou a ser uma grande empresa a Mármoreindústria, de que nós aproveitámos parte das instalações. O meu pai foi canteiro nessa empresa. Houve uma grande crise em 2008. Já não me lembro muito bem, mas a Pardal Monteiro faliu antes. Houve pessoal que saiu dessas firmas e fundaram empresas pequenas, que aliás sempre houve.

F.M.-Hoje haverá para aí quantas empresas?

E.G.-Talvez mais de cem.

Essas firmas que faliram foi quando as empresas ficaram com a gestão dos trabalhadores, e correu muito mal.

F.M.-E antes do 25 de abril houve alguma luta dos trabalhadores por melhores condições?

E.G.-Houve qualquer coisa, não me lembro, mas sim, houve lutas.

AlexandraGomes-As condições de trabalho eram muito mais difíceis do que são hoje.

E.G.-Era um bocado… A maquinaria veio ajudar muito e a segurança é muito maior.

A. G.-Dantes havia muitos acidentes de trabalho.

F.M.-Quais as profissões tradicionais relacionadas com a pedra?

E.G.-Havia o cabouqueiro, era o trabalhador da pedreira. Para esquadrar um bloco era feito à mão com camartelo e um picão. Uma peça com dois bicos, um para cada lado. Era aquele que fazia com que os blocos tivessem uma forma perfeita.

O canteiro é aquele que trabalhava com a maceta e um picão a fazer um produto acabado. Tinham sempre um calo na mão onde esta apoiava o picão. Canteiros hoje em dia há poucos, e o nome que se lhes dá é acabador.

Para cortar o bloco usava-se o fio helicoidal e ainda se usa, tenho aí um.

Temos aqui uma situação chata. Nós fomos os primeiros aqui na zona a fazer pedra com um centímetro de espessura, 30X30, 40×40 e até 10×10, isso implicou a aquisição de uma série de máquinas, que hoje em dia estão paradas, pois não há ninguém a pedir esse tipo de pedras. Esse equipamento quase que trabalhava dia e noite e hoje está parado.

Entre os revestimentos pequenos fazíamos também a chamada pedra envelhecida, tínhamos um sistema em que as púnhamos numa betoneira o que esborrava as arestas das pedras dando-lhes um aspeto rústico.

Aí há mais de trinta anos esteve aqui uma jovem brasileira de Salvador da Baía, que estudava arquitetura, e verificou que havia na sua terra muitos edifícios nobres em pedra e acabou por ter conhecimento que aquele material tinha vindo de Portugal. Então ela veio cá saber mais coisas, para escrever um livro e acabou por escrever o livro: “O Lioz Português de lastro de navio a arte na Bahia”. O livro foi mal publicitado e não teve quase saída nenhum. Eu tenho feito algumas “démarches” para que o livro seja conhecido.

A.G.-Podemos tirar algumas fotos?

E.G-Com certeza.

F.M. e A.G.-Obrigado.

Alguns aspectos da GraniSintra

Pavilhão Principal

Máquina de polimento

Executando pequenos trabalhos

Maquinaria para corte de blocos e para corte de ladrilhos

Bloco de granito em bruto Material pronto para remessa

Alguns trabalhos artísticos presentes nos escritórios da empresa