O Lioz da área de Montelavar/Pero Pinheiro

O Lioz foi sempre a rocha mais explorada na região de Montelavar/ Pero Pinheiro. As suas múltiplas aplicações, decorativas, revestimento ou como pedra de cantaria, variam em função das suas potencialidades estéticas ou físico-mecânicas.

O lioz é uma rocha calcária que contem fósseis de bivalves marinhos. É geralmente branca, mas apresenta várias texturas e colorações, entre outras, rosa, vermelho, cinza e amarelo. As suas várias designações relacionam-se com a área de ocorrência e com a sua coloração, por exemplo, “Encarnado de Morelena” ou “ Amarelo de Negrais”.

O lioz é contemporâneo dos dinossauros tendo-se formado no início do Cretácio Superior, no período cenomaniano. A sua origem resulta da precipitação no fundo marinho de carbonato de cálcio, sob a forma de microcristais de calcite, em simultâneo com a dos vestígios duros de alguns dos organismos vivos que aí habitavam, designados genericamente por rudistas.(1)  Ou seja, entre a calcite encontramos conchas de bivalves, cuja maior ou menor presença, se deve às diferentes condições geológicas do ambiente de formação de cada tipo de Lioz.

Rudistas e a forma como se apresentam em função do corte da pedra

A preservação destes fósseis facilita a leitura do ambiente e da época geológica em que se deu a sua deposição assim como as transformações ocorridas até à consolidação da rocha. Sabemos assim que há cerca de 90 milhões de anos, no período intermédio do Cretácio Superior, designado por Turoniano, a área ocupada por Lisboa e arredores estava submersa. Foi nesse ambiente marinho que se formaram as rochas calcárias de Lisboa, Cascais e Sintra. As variações em textura, coloração e conteúdo fossilífero dependeram das condições locais em que se deu a sua formação e posterior consolidação.

Os primeiros calcários a serem explorados foram os da área de Lisboa, das pedreiras de Alcântara, Paço d´Arcos, Oeiras (como a “pedreira dos Húngaros”) e de dentro da atual cidade (a designação “S. Sebastião da Pedreira” é disso testemunho); amplamente utilizados nas construções civis, religiosas e militares da capital. Quanto ao lioz de Sintra, em particular o da área de Pero Pinheiro e arredores (Maceira, Negrais, Fervença, Morelena, Terrugem, Pedra Furada, entre outros locais), este só vai ser plenamente reconhecido e utilizado a partir da construção do Convento de Mafra na primeira metade do séc. XVIII, quer devido à proximidade da obra, quer devido ao esgotamento das pedreiras da área de Lisboa.

O lioz, sendo um calcário microcristalino, é naturalmente compacto e homogéneo, pelo que tem excelentes propriedades físico-mecânicas, sendo um bom material de construção. Por outro lado, a sua brandura (tem uma dureza de três em dez na escala de Mohs), facilita que seja trabalhado como pedra de cantaria. O lioz também recebe bem o polimento, ficando brilhante, pelo que tem sido confundido com o mármore.

Os principais tipos de rocha ornamental existentes na formação geológica dos calcários da região de Sintra,  são o Lioz Almiscado (Maceira), Amarelo dos Negrais (Negrais), Azulino (Maceira), Encarnado dos Negrais (Negrais), Encarnadão das Lameiras (Lameiras), Encarnadão de Morelena (Morelena), Lioz (Pero Pinheiro), Lioz de Montemor (Montemor), Azulino (Montelavar), Saint Florient Rose (Lameiras), Vidraço da Pedra Furada (Pedra Furada) e o Vidraço Banana (Pero Pinheiro). Note-se, no entanto, que estas designações não são precisas, não existindo total consenso nos nomes atribuídos, e muito menos uma listagem de carácter científico sobre as diversas variedades.

Alguns tipos de calcários da região

Azulino de Maceira Encarnado de Negrais Vidraço da Pedra Furada

Amarelo de Negrais Encarnado da Pedra Furada Lioz de Pero Pinheiro

Lioz de Montemor St. Florient Rose de Lameiras

Refira-se ainda que o padrão decorativo do Lioz também depende da forma como os blocos de pedra são cortados. Quando são cortados “a favor”, quer dizer, na orientação do estrato ou leito de deposição, ficam realçadas, mesmo nos liozes mais escuros, as marcas circulares esbranquiçadas das conchas dos rudistas. No caso em que o bloco é cortado de forma perpendicular ao estrato, ou seja, “contra” os restos das conchas e a forma irregular dos leitos de deposição determinam um padrão irregular e alongado designado por “chainete”.

Antiga Pedreira da Pedra Furada

Atualmente a maior parte das pedreiras estão abandonadas, tendo algumas delas sido absorvidas pelo crescimento das povoações, existindo apenas algumas pedreiras em laboração.

A atividade extrativa e transformadora tem trazido sérios impactos ambientais. Os materiais rejeitados, ou seja, não aproveitados , espalham-se por toda a área de Pero Pinheiro/Montelavar, tendo um impacto visual e paisagístico muito negativo. Por outro lado, as pedreiras abandonadas, além de constituírem “feridas” na paisagem, trazem problemas sanitários e de segurança, pois, ao se tornarem reservatórios de água, proporcionam o desenvolvimento de microrganismos e insectos e criam riscos para os mais incautos. Em 2024 ocorreu o afogamento de um jovem na antiga pedreira da Pedra Furada.

(1)-Os rudistas são um grupo extinto de bivalves, com aspecto muito diferente dos que existem actualmente. A presença de fósseis destes animais nas rochas carbonatadas da região de Lisboa é um testemunho da existência neste local de um antigo mar tropical costeiro, pouco profundo, de águas quentes e límpidas, com fundos formados por vaza (lama) carbonatada. Os rudistas viviam semi-enterrados no fundo lodoso, formando grandes aglomerados, ou bancos, que ocupavam extensas regiões dos fundos marinhos de então. Estes animais extinguiram-se no fim do período Cretácio na mesma altura em que se extinguiram os dinossauros.