Na planície que se estende a nordeste da Serra de Sintra encontram-se, nos estratos superficiais de calcários do Cenomaniano (1), vários “Campos de Lapiás”. Os lapiás são rochas calcárias “trabalhadas artisticamente” pela natureza, predominantemente através da ação química das chuvas.

Lapiás em Maceira
As águas da chuva contêm, em solução, uma certa quantidade de dióxido de carbono (CO2), o qual, juntamente com a própria água (H2O), transforma o carbonato de cálcio em bicarbonato (HCO3), dissolvendo assim a rocha. O ataque é desigual, dada a falta de uniformidade da composição do calcário, e, por isso, começam a surgir sulcos. Estes sulcos que, a princípio, são superficiais, não tardam a aprofundar-se, surgindo arestas de separação. Nas superfícies inclinadas, a corrosão atua segundo o próprio declive, ao passo que nas superfícies planas, como as da região de Pero Pinheiro/Montelavar/Maceira/Negrais, a ação das águas pluviais exerce-se sobretudo a longo das diaclases (1) que favorecem a infiltração das águas em detrimento da sua circulação superficial. Com o passar dos milénios, as diáclases vão-se alargando até subsistirem blocos de rocha separados. Estes blocos, que parecem nascer do solo, apresentam formas irregulares curiosas e sugestivas, que, algumas vezes, lembram cogumelos. A superfície dos lapiás é muito irregular e, frequentemente, rasgada por estreitos sulcos horizontais, que nascem por ação da chuva impelida pelo vento, e que se devem às variações de dureza na composição do calcário, frequentemente conchífero. Por vezes, a própria vegetação, em particular as raízes das espécies arbóreas e arbustivas, favorece também o alargamento das fendas verticais e dos sulcos horizontais. Entre os corpos de lapiás, o solo é constituído por terra rossa, um resíduo argiloso não solúvel de cor avermelhada.
Estes afloramentos contrastam com os bancos de calcários microcristalinos das pedreiras da região (como, por exemplo, o lioz) que se encontram a maior profundidade, sendo como que indícios daquilo que o solo esconde (o lioz transformar-se-ia em lapiás se estivesse à superfície durante milhões de anos a sofrer a erosão dos elementos).
A nordeste de Sintra, encontramos várias formações de lapiás. As da Pedra Furada formam um grupo central. A nordeste, encontram-se os grupos da Pedra d’Abelha, Negrais e Santa Eulália. A sudoeste, encontram-se as formações da Granja dos Serrões e de Pero Pinheiro. Existem ainda as formações de Maceira, junto a esta povoação e mesmo no seio dela.
Os lapiás da Pedra Furada apresentam-se sob a forma de um agrupamento de colunas intervaladas por corredores labirínticos invadidos por vegetação. As suas caprichosas formas fizeram com que fossem batizadas pelo povo com curiosos microtopónimos. O grupo da Pedra Furada, para além de sofrer a ameaça por parte das pedreiras, foi cortado pela construção da linha do oeste, perdendo, em grande parte, o sentido de continuidade homogénea que inicialmente apresentava.

Campo de Lapiás da Pedra Furada
O grupo da Granja dos Serrões, apesar da destruição operada pelas pedreiras próximas, continua a ser um dos melhor conservados. É também um dos mais espetaculares, em parte por se situar numa área abatida, formando um pequeno vale onde os processos de dissolução se exerceram em maior profundidade. É constituído por três núcleos de formações, um com alturas médias de 3,5m, situado a oeste, outro central, o mais proeminente, com alturas que chegam aos 6m. Outro, ainda, com formações de pequena altura, com um máximo de 3m. A formação da Granja dos Serrões recebeu o estatuto de sítio classificado pelo Dec-Lei 393/91, de 11 outubro.

Gravura do início do séc. XX representando a formação da Granja dos Serrões
Dos lapiás do conjunto de Maceira destacam-se o Arco da Segueteira e a Pedra da Figueira, esta situada no centro da povoação e fazendo um curioso conjunto com uma velha figueira cujas raízes se incrustaram na rocha.

Arco da Segueteira em Maceira

Pedra da Figueira em Maceira
Muitos outros campos de lapiás existiriam, não fora a intensa exploração da pedra que há milénios existe na região, em particular a que se desenvolveu a partir do século XVIII (com a construção do Convento de Mafra). A abertura de pedreiras, e toda a atividade desenvolvida em seu torno, destruiu muitos campos de lapiás. Por outro lado, a extensão da área urbanizada, em particular na segunda metade do século XX, destruiu muitos outros. Aliás, é vulgar encontrarem-se lapiás inseridos nas paredes do casario.
(1) O Cenomaniano corresponde à primeira fase do Cretácio Superior, ou seja, o período entre 100 milhões e 94 milhões de anos atrás.
(2) Diáclase, em geologia, refere-se a uma fratura ou fissura em rochas, onde não há um deslocamento significativo dos blocos formados. É uma descontinuidade física na rocha, similar a uma junta ou fenda, mas sem o movimento lateral característico das falhas.