Resenha Histórica

A exploração da pedra em Montelavar

A “indústria da pedra” na região de Sintra remonta há, pelo menos, dois mil anos. De facto, a  atividade extrativa e transformadora da pedra na área de Sintra já existia na Antiguidade Clássica, como atestam os numerosos exemplos de arte funerária romana guardados no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas. Porém, é provável que a exploração da pedra na região seja mais antiga, nem que tenha apenas sido feita para a edificação dos monumentos megalíticos que abundam na região.

Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas

Sabe-se que as pedreiras estiveram sobretudo ativas nos séculos I e II da nossa era. A extração da pedra andou sempre associada, por questões de logística e rentabilidade económica, à sua transformação, como nos comprovam os vários exemplares de aras votivas, sarcófagos e túmulos encontrados na região, que, dado o seu grande número, seriam, muito provavelmente, destinados a venda e comercialização no espaço da província romana ou mesmo do império. Na Alta Idade Média as pedreiras já deveriam estar inativas, pois todas as poucas cantarias visigóticas que se encontraram na região resultam do reaproveitamento de monólitos extraídos na época romana.

No entanto, terá havido alguma atividade extrativa nos períodos subsequentes da Idade Média, mas esta centrou-se sobretudo no aproveitamento para construção do granito da Serra de Sintra

A partir do séc. XIV, com a construção do Palácio da Vila em Sintra, a atividade extrativa reanimou-se e, para além do granito, passou-se a utilizar o calcário nas zonas de talhe decorativo, por ser mais facilmente trabalhável. Também verificável é a utilização da rocha da região nas igrejas contruídas nos séculos XVI e XVII nas localidades próximas, as matrizes de S. João das Lampas, de Montelavar, da Terrugem e a capela de S. Mamede em Janas.

Capela de S. Mamede em Janas

No séc. XVIII a construção do Convento de Mafra, ordenada por D. João V, na proximidade geográfica da zona de extração e transformação, irá, dada a sua grandiosidade, impulsionar em definitivo estas atividades e levar ao consequente crescimento populacional na região, que recebeu pessoas vindas de muitas partes do país para trabalharem como cabouqueiros ou canteiros. O lioz da região foi não só utilizado em elementos estruturais, mas dada a sua qualidade, em alguma da estatuária (1) e em peças de cantaria trabalhada, como a gigantesca pedra do altar.

Convento de Mafra

A indústria receberá um novo impulso com o terramoto de 1755, e a necessidade de reconstrução da capital, que irá tornar insuficiente a pedra da área de Lisboa (em particular, a das pedreiras de Belém e Alcântara), obrigando a que se recorra à de Sintra.

A exportação de rochas da região de Pero Pinheiro terá começado ainda no séc. XVII e foi fortemente incrementada nos dois séculos seguintes.  A rocha era levada para o Brasil como lastro dos galeões, evitando que adernassem, para depois ser reutilizada na construção de templos. É por esse motivo que encontramos sobretudo em São Salvador da Baía, mas também no Rio de Janeiro, várias igrejas onde encontramos lioz da região de Pero Pinheiro. Em São Salvador este lioz foi utilizado na Catedral, na Igreja do Bonfim, na de S. Pedro dos Clérigos, de Nossa Sra. do Carmo, da Ordem Terceira do Carmo, Nossa Sra. da Conceição da Praia, entre outras. Templos em que encontramos o “Amarelo de Negrais”, o “encarnadão”, o “branco” e o “rosa claro”, ou seja, diversas variedades do lioz da região de Sintra.

Catedral de S. Salvador da Baía

Na segunda metade do séc. XIX, em particular nas décadas de 70 e 80, com o impulso dado pelo governo de Fontes Pereira de Melo, assistiu-se à expansão e melhoramento das vias de comunicação um pouco por todo o território e ao crescimento significativo da construção civil, em particular em Lisboa (na época em acelerado crescimento populacional) o que deu um grande impulso à indústria extrativa e transformadora. A região de Sintra irá contribuir com o seu lioz para a estrutura e sobretudo para as cantarias dos edifícios lisboetas então edificados. Já no início do século XX a pedra da região de Sintra continuará a ser utilizada, quer em grandes obras como os Armazéns do Chiado, quer em mobiliário, como os típicos tampos das mesas dos cafés e tabernas de então.

Café de Lisboa, cerca de 1930

Já no período do Estado Novo, o arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, natural de Pero Pinheiro, projetará muitas das emblemáticas obras modernistas da época (a estação do Cais de Sodré, o Instituto Superior Técnico, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, a Gare Marítima de Alcântara, o Hotel Ritz, entre muitas outras), sendo a sua empresa familiar, fundada em 1888, a fornecer os calcários para grande parte delas.

Igreja de N. Sra. de Fátima (Lisboa) Porfírio Pardal Monteiro

A partir de meados da década de 1950 a indústria extrativa da região começou a declinar face à forte competição dos calcários cristalinos do Alto Alentejo, mais procurados pelos mercados interno e externo.

Em finais dos anos cinquenta o Padrão dos Descobrimentos, inicialmente construído em materiais perecíveis para a Exposição do Mundo Português de 1940, será reconstruído em pedra lioz de Leiria; mas as suas estátuas serão esculpidas em Pero Pinheiro no calcário na região, demonstrando a obra o elevado nível artístico e técnico dos mestres escultores de então.

Execução das estátuas do Padrão dos Descobrimentos

Na segunda metade do século XX a extração e transformação da pedra será dominada por empresas de grande dimensão, como a Urmal e a já mencionada Pardal Monteiro, que se tornarão as grandes empregadoras da região. Estas empresas introduzirão melhores condições de trabalho e remuneratórias, num setor em que até aí as condições eram deploráveis.

Instalações da Empresa Pardal Monteiro atualmente

Na segunda metade do século XX a transformação da pedra irá ganhar espaço à extração, cada vez mais limitada, dado o esgotamento das pedreiras. Assim, a indústria local irá passar a receber pedra de todo o país, em particular mármore de Estremoz, que depois de transformada será vendida a nível nacional e internacional. Prova desta internacionalização será a participação da empresa Granitos de Maceira em diversos projetos no estrangeiro como o monumento às vítimas do Vaivém Challenger, em Filadélfia, as estrelas do passeio de Hollywood, a estátua de Agostinho Neto em Luanda ou monumento que assinala os 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão.

Monumento comemorativo dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão em Nagasaki. A peça, da autoria de Pedro Ramos, foi inaugurada no topo do monte Inasa pelo presidente Mário Soares.

Entre 1988 e 1993 foi construído o Centro Cultural de Belém, cujas paredes, aproximadamente 36 mil metros quadrados, foram revestidas por Abancado de Pero Pinheiro.

Centro Cultural de Belém

A primeira Guerra do Golfo, no princípio da década de 90, marcou uma crise em que muitas das grandes empresas, como por exemplo a Pardal Monteiro, dependentes das exportações para os países árabes, abriram falência, o que irá trazer grandes repercussões sociais.  No entanto, a indústria acabará por recuperar, e surgirão, ainda, nessa década muitas novas empresas, quase todas de pequena e média dimensão.

Em 2007 existiam quatrocentas e oitenta e três empresas da indústria transformadora nesta região, a maioria implantadas na zona geográfica da atual União das Freguesias de Almargem do Bispo, Pero-Pinheiro e Montelavar.

Na verdade, a extração e transformação da pedra esteve sempre à mercê das flutuações da construção civil, pelo que teve ao longo dos tempos altos e baixos, como a crise de 1949, ou, muito mais recentemente, a crise de 2009. Esta última crise económica nacional, que implicou uma quebra acentuada no sector da construção, conduziu ao encerramento de várias grandes empresas, entre elas, a Mármores de Condado, a Possant Almeida, a Mármores Manuel Esteves Victor, a Mármovel, a J. Duarte & Filhos, a Monumar , a Granitos de Maceira e a Irmãos Batistas . Atualmente mantêm-se ainda duas empresas de grande dimensão a Urmal e a Mármores Galrão.

Instalações abandonadas da Granitos de Maceira, 2025

Nas últimas décadas tem havido um novo crescimento da indústria, embora lento, que tem sido capaz de criar novos produtos e novas formas de os apresentar, e de se expandir para novos mercados. Um exemplo de um novo produto é a pedra artificial Silstone. A indústria local passou também a transformar pedra vinda do estrangeiro, por exemplo de França, do Brasil e de Angola. As empresas, novas ou não, tem recorrido também à introdução de novas tecnologias como as máquinas CNC (controle numérico computorizado) ou ao reforço da pedra com estruturas metálicas.

Máquina CNC (Controle Numérico Computorizado)

(1) As estátuas de maior dimensão e relevância artística foram executadas em Mármore de Carrara